4.11.13

noose

por um momento, achei que fosse morrer. de verdade. meu corpo devia estar pesando uns 200kgs, embora eu não pese nem sessenta. leva você, eu disse, quando parei o carro cinco minutos depois de sair de casa. eu não tinha força nos braços pra dirigir.
na roupa ficou o cheiro de cânfora do emplastro. a sensação é de que isso nunca vai evaporar. nem se eu lavasse umas cem vezes. mas não vou lavar nada. acho que está impregnado no meu nariz.
a vontade de sair andando era imensa. sem ter pra onde ir. só andar. sem fugir. somente andar. e respirar esse ar pavoroso que São Paulo nos proporciona. eu odeio esse lugar. odeio muito. deixei-me ser domada por uma cidade que cheira a mijo. sinto-me fraca e acho que não vai dar mais. chega. já chega. eu não aguento mais.
não me lembro mais das coisas. o que eu jantei ontem? até onde eu vi The Killing? o que é que eu tinha pra fazer hoje mesmo? vez ou outra me pego procurando coisas que estou segurando na outra mão.
não quero levantar. não quero ir ali comer. não quero ir ali trabalhar. nem ali no outro trabalhar de novo. acho que tenho claustrofobia. só pode ser. coloco a cara pra fora, sinto o cheiro de mijo e me enojo. eu odeio esse lugar com todas as minhas forças. quero sair correndo. acho que quero começar a treinar. minha respiração está uma merda, meu coração vive acelerado. preciso fazer exercícios. meu corpo dói absurdamente, por inteiro. não há um espaço no corpo que não doa. pareço estar com a carne exposta.
acho que preciso tirar uns dias de férias, não pra voltar revigorada, mas pra não piorar. estou desgovernada, indo ladeira abaixo.
tenho vontade de chorar quando abro meu e-mail do trabalho.
e desculpe se não me interesso. não é por querer, é porque não consigo prestar atenção. porque eu não estou entendendo nada ultimamente. acho que carrego cem quilos só acima do pescoço. aqui não entra mais nada. preciso vazar. correr e suar. acho que aguento cem quilômetros seguidos. quero passar uns dois dias correndo. e suar a alma. até não existir mais nada. até que a dor desapareça. até que tudo se dilua.
mas não hoje. hoje estou presa na cadeira na frente do computador. estou vestida e pronta pra sair, mas a porta parece um lugar muito distante daqui, embora fique somente a alguns pequenos passos. não quero ir ali. ver aquelas pessoas, passar naquela recepção me enoja ao ponto de revirar o estômago. quando foi que me tornei isso? me olho no espelho e não me reconheço. a feição é outra. sinto-me feia e acabada. magra, com os ossos expostos. e um monte de cicatrizes. minha pele está desfazendo, minhas unhas estão saindo em camadas.
as roupas parecem não servir mais. e os sapatos estão largos. será que estou encolhendo? minha postura está cada vez mais arcada. quero me esconder aqui embaixo da mesa. acho que é um processo lento até encarangar e virar aquelas pessoas corcundas com verruga peluda na cara. já devo estar no passo três ou quatro, algum tipo de nível avançado de envelhecimento precoce. quanto tempo daqui até estar morto por dentro totalmente? sinto dores no estômago. não quero comer.
passei um tempo me dedicando a roupa que estou vestindo hoje. puxa daqui, estica dali, não está bom ainda, mas acho que dá pra sair assim sem que alguém ria da minha cara. espero não ter que ouvir alguém me chamar de canto no metrô pra falar que estou com a bunda de fora porque minha saia está rasgada ou ela não está colocada corretamente. ou que estou com sapatos trocados.
só quero correr. vou começar a correr à noite, quando o minhocão fecha. vou daqui até a zona leste, sem parar. e depois voltar. pelas ruas escuras e silenciosas. São Paulo às vezes sabe ter um silêncio ensurdecedor e calmante ao mesmo tempo. talvez eu corra de braços abertos e olhos fechados, torcendo pra não tropeçar num dos mil buracos da rua mal asfaltada.
vou até ali suar a alma, me diluir, me reduzir a água. e deixar vazar, por todos os cantos. e quando eu voltar, quero panquecas de carne e milkshake de chocolate com cobertura de caramelo. porque espero estar com fome. vou ali ver se consigo pensar mais simples. e eu já volto. vou ali suar, porque chorar já não adianta mais. preciso chorar de corpo inteiro. e fazer a dor se esvaecer, correr entre as pernas. e fazer o coração descompassado bombear corretamente. e assim que eu chegar, vou jogar essa roupa fedendo a cânfora, fora. é isso. o plano é esse.
mas não pra hoje. vou deixar pra daqui a pouco. porque preciso encarar o longo curto caminho até a porta e me enojar ali na recepção e sentir o cheiro do desprezo. às vezes pergunto-me se sou eu. ou o que foi que eu fiz pra merecer. vai ver é algum tipo de punição. quem acredita nessas coisas deve saber me explicar melhor. porque eu não posso.
fazer nada.
pelo quanto eu sei que isso é só agora.
e que é por enquanto.
não é pra sempre.
é só uma fase.
é só um contratempo. 

house of the rising sun

Hoje eu entendo por que alguém estoura uma arma na cara. Num movimento de desespero absoluto, nos vemos sem saída a não ser cortar a dor pela raiz.
Ou a gente continua se arrastando e tentando. Da última vez, fiquei aos pedaços, ajoelhei nos meus próprios estilhaços tentando juntar tudo, mas a única coisa que consegui foi ficar com cacos cravados nos joelhos.
Não mais do que isso. Não nos sobra nada. Tudo que você fez e foi, hoje não lhe servem de nada. O orgulho da batalha vencida virou caco no joelho. E pouco importa. Porque não há reciprocidade. Você joga aos ventos suas melhores coisas. E elas se vão feito folha seca. Você está oco por dentro. Você grita. Você pede ajuda. E o que recebe de volta são estilhaços que você largou por aí. Isto é seu. Cuide. Ponha de volta. E não há ninguém pra ajudar a recolhê-los. E não há nada em volta a não ser uma muda de roupas e os sapatos que apertam. Não há mais nada que o faça levantar. Não há mais nada que faça valer a pena a luta. Você está morrendo. E não há absolutamente nada que faça com que isso se reverta. Um dia a mais. Um dia a menos. E seus desejos reduzidos a pó. As pessoas duvidam. As pessoas não entendem. As pessoas só pensam nelas mesmas e em como nós a machucamos. As pessoas são eternas vítimas dos outros. De si mesmas. O egoísmo é o pior câncer. Engole a alma. Cega.
Tanto fiz. Tanto fez.
Importam-se em se culpar pela sua dor. Importam-se em como fazer-se de vítima diante dos seus cacos. Heróis das dores dos outros. Você não sabe o que é querer morrer. Você sabe de alguém que já o quis. Ou de alguém que consumou o ato. São especialistas da dor alheia. Mas pouco sabem da sensação de queimar vivo.
Você vira e desvira. Move montanhas pra encurtar caminhos. Senta e espera. E quando leva seus órgãos soltos pra serem recolocados, hoje o médico não está. Passe amanhã. Hoje não. Agora não. Você sempre está na hora errada dos outros. Você não pode ter sua hora. Você é egoísta, daí.
E você não pode ser fraco. Você deve ser forte. Deve manter-se em pé, recolher seus estilhaços e não deixar nada a vista, porque ai de você se alguém pisar e se machucar. Você que vai ter que cuidar. Mas eu te pergunto... e de mim? Quem é que vai cuidar quando eu precisar?
Fazer-se-ão herois da sua dor sem ter sequer encostado nela pra saber. Sem ter te ajudado a recolher nada. Sem ter ao menos tentado pegar as folhas secas ao vento. Sentam e esperam. Que a gente mova montanhas. Pro caminho encurtar. Você fecha seu caminho pro outro poder passar. E se você se recusa, você é egoísta, daí. Alguém que só está aí pra sua dor.
Você tem que ser versátil. Plural. Impecável. Tire os cacos do joelho. Cubra essa queimadura. E ai de você se não fizer. Você se fez de vítima, daí. Não pode não estar afim. Não pode não gostar. Verde não lhe cai bem. Não interessa se é sua cor favorita. Tente o azul. Você odeia o azul.
Você larga tudo. Não pra trás. Apenas larga. O peso é o triplo do seu. E não dá pra mover adiante. Você para. Senta e espera. E ninguém aparece pra por seus órgãos no lugar. Então você vai arrastando o peso até onde dá. O ombro pesa. E você tem que ser forte. Ai de você se amarelar. Você é covarde, daí. Vá. Continue. Você não pode parar. Marche. Sue até quase desmaiar. Se eu aguento, você aguenta.
Você já não sente mais as pernas. A cabeça pulsa nas laterais. As mãos estão inchadas. Você desiste. Não dá mais pra ir a lugar algum assim. Você está dando voltas no mesmo ponto. Ligou sua vida no automático.
Mas você não pode parar. Grite. Discuta. Faça. Seja. Lute. Levante. Cuide. Cuide de novo. Tenha. Pareça-se com o interessante do outro. Use. Tatue-se. Pinte. Encurte. Alongue. Não grite. Não discuta. Não fale. Não faça. Não seja. Não lute. Não tenha. Não use. Mas nunca pare de cuidar. Esteja sempre bonito. Seja você mesmo. Mas quem? Seja Assim. Porque é o melhor pra você.
É?
Vá por ali. É o melhor caminho. Não se incomode com isso. É exagero. Não sinta dor. Não precisa. Seja feliz. Sorria. Não demonstre. Esconda. Esconda. Esconda. Esconda sempre. Mas seja você mesmo. Em hipótese alguma traia. E perdoe caso alguém o faça.
Somos humanos. Humanos erram. E, no fundo, somos todos iguais. Não é?
O outro.
Você.
E eu. E eu! E eu?

15.8.13

talvez não

talvez não. 
talvez eu não perdoe. 
porque perdoar não é assim. não é como fazer e depois pedir desculpas. 
perdoar exige uma série de outras coisas, que eu não estou disposta. e não é pelo sorriso. é pela atitude. por coisas que sempre detestei. é por ter que pedir respeito. 
não, meu senhor.
não.
talvez eu não queira perdoar. talvez eu não queira esquecer. não queira deixar pra lá. 
porque dias atrás, eram juras de amor. de como nossos pedaços foram se juntando, até ficarmos inteiros. e tudo desmorona. porque eu não tolero. não estou podendo, meu senhor, me desculpe, mas as portas estão fechadas. por favor, não insista. vá bater na porta de outra pessoa. acabou essa história de fiado. e hoje não. hoje não vai ter mais. quem sabe mês que vem. ou ano que vem.
ou nunca mais.
porque é hora de partir. 
é hora de ir pra Argentina de moto. e largar tudo pra trás. todos os meus pedaços devolvidos, porque talvez eu não precisasse mais deles. talvez eu estivesse bem com os meus buracos e estivesse preenchendo com outras coisas. com coisas minhas, que eu havia esquecido como eram. e agora você chegou, com seu carrinho de mão cheio de pedaços, aqueles que eu não queria mais ver. nunca mais. 
não há vagas aqui dentro.
e me deixe ir pra Argentina de moto. quero conhecer Montevidéo. e passar frio na estrada. ficar com as costas quebradas por conta da posição horrenda que é a de sentar numa moto. então me deixa ir ali tomar um vinho, comer uma boa comida. e esquecer do resto das coisas. e esquecer um pouco esses muquifos mofados que a gente insiste em chamar de casa. e me deixa esquecer que tenho dois empregos que eu detesto. que eu tenho que pedir respeito pra pessoa que selou um compromisso comigo sob regras claras de reciprocidade. então me deixa ir pra casa. e ficar lá ouvindo Nina Simone em alto e bom som. então me deixa, meu senhor, porque talvez eu não queira tanto assim fazer parte. 
porque talvez eu tenha me enganado um pouco. e tenha me deixado levar por coisas que não me diziam respeito. então me deixe aqui, revendo minhas dívidas por conta dos fiados que nunca foram pagos. me deixa aqui na minha bagunça. na minha viagem de moto. na minha road trip nas províncias da Itália. me deixa aqui com os meus sonhos pequenos, mas meus. só meus. e tire a mão dos meus pedaços, porque eles não te pertencem. são meus. e eu decido que não os quero mais. 
talvez eu não queira ser inteira agora. 
talvez eu precise dos meus buracos.
talvez eu precise passar um dia sem comer. ou precise ficar brava com as coisas. 
me deixa aqui chorando, sozinha, no meu canto. me deixa aqui, porque eu estou sem fome e não vou comer.
me deixa aqui sozinha, pensando se eu quero construir alguma coisa. pensando se jogo fora meus pedaços ou se coloco num quadro em formato de mosaico. pensando no carro que vou escolher pra fazer minha road trip na Itália. pensando em como deve estar frio em Montevidéo agora. e em como eu queria estar na estrada, congelando e morrendo de dor nas costas. 
me deixa aqui, me olhando no espelho e me sentindo bonita, inteira. me deixa rir na frente do espelho, dançar Nina Simone e tomar um bom vinho. nem que seja sob a luz baixa do meu muquifo mofado. mas deixa, porque talvez eu precise só de um tempo. 
mas é só por enquanto.
não é pra sempre.
é só uma fase.
é só um contratempo.

10.4.13

blue valentine - 17/02

e era dia de são valentim. sei lá por que diabos as pessoas resolveram comemorar esse negócio aqui no brasil. mais um dia pra gente ser estuprado por essa ideia de comemorar o amor em forma de agrados obrigatórios. cada casal já tem o seu dia dos namorados - aquele dia em que assopram-se velinhas, eba, 1, 2, 10, 15 anos de namoro. somos obrigados a dar presente. somos obrigados a levar nossos cônjuges a lugares lotados, de casais perfeitos. porque todo casal é perfeito no dia dos namorados. vamos evitar discussões porque é dia dos namorados. não vamos terminar porque tá perto do dia dos namorados etc.
deplorável. 
enfim, era dia de são valentim. 
happy (insira aqui meu apelidinho-não-publicável a dois)'s day. e eu me pergunto que diabos é isto, se nem valentines somos. esse tipo de coisa me confunde. no fundo, eu queria muito perguntar se am I your valentine?, mas aí achei melhor deixar pra lá. faço uma piada imbecil - mania chata e inconveniente que achei pra desconversar - e fujo do assunto. e fica por isso mesmo. jogaram um balde de gelo na minha cabeça. e eu queria muito que fosse de verdade, porque faz um calor dos diabos aqui nesta cidade abafada e cheia de baratinhas que invadem meu banheiro. mas é só no figurativo mesmo, porque continuo derretendo, como se fosse uma senhora muito acima do peso, na menopausa e em crise de ansiedade. 
e era valentine's day. e tudo que eu sei é que a Fiona Apple tem uma música chamada Valentine. música, esta, que muito muito me agrada. Fiona passa longe de ser uma das minhas cantoras favoritas. acho muito bruto o jeito como ela toca piano. piano tem que ser sutil, leve, fino, classy. tem que se vestir de terno e gravata pra sentar na frente de um piano. tem que ser um ser evoluído de alma e à flor da pele pra acariciar as teclas. senão incomoda, assim como as baratinhas que habitam meu banheiro. elas saem do minúsculo vão do batente e estão por toda parte. e nunca acabam. mato uma e depois vem outra e opa 1, 2, 10, 15 baratinhas. 
deplorável. 
tanto quanto o dia dos namorados - que seja o gringo ou o daqui mesmo. um dia inconveniente, onde somos estuprados por ideias obrigatórias e que se não damos presente porque estamos quebrados, somos mão de vaca ou não nos importamos o suficiente. sabe, esse negócio de obrigatoriedade é um pouco irritante. e de denominações também. dia dos pais, dia dos namorados, dia das mães, dia da puta-que-pariu. 
que encheção. 
era dia dos namorados gringo e só sei que... não seria nada, nada mal, nem um pouco mesmo se ao menos eu soubesse se sou valentine. não que as rotulações sociais realmente sejam relevantes, mas só queria saber onde estou, porque tô me sentindo pequena, muito pequena, e perdida, igual uma baratinha, que não é grande suficiente pra ser asquerosa, odiável, aquela que as pessoas temem, cuja presença causa algo, mas de um tamanho suficiente que incomoda, mas pouco. daquelas que você olha e não necessariamente precisa matar, porque ela só está coexistindo num mesmo espaço e não vai subir nas suas pernas, nem voar na sua cara. ela só está ali, existindo e sendo praticamente invisível. 
acho que vou por Fiona pras baratinhas ouvirem. espero que elas se incomodem com o modo como ela toca piano e vazem, sumam daqui e me deixem curtir o piano descompassado de Valentine, bem alto, incomodando o dia de São Valentim dos meus vizinhos. e de suas baratinhas. 
I root for you. 
I love you. 
You-you-you.

mercearia - parte II - 09/02

e cuida da Carol, porque o coração dela tá fibrilado, disse o homem grisalho do aperto de mão estrategicamente forte. durante a audiência, ele ficou tentando puxar a âncora do meu dedo da mão direita. não sai, eu disse. minha chefe logo tratou de mostrar minha tatuagem do pulso. e esse negócio pavoroso que ela fez no braço, doutor, olhe isso, disse ela, horrorizada. o coração dela tá machucado, de tanto fibrilar, enrijeceu, olha lá, coitada, num tom de brincadeira, sorrindo sinceramente. o coração cravado no pulso não é vazio, é cheio de caminhos e curvas que não se encontram. uma bagunça só. 
mas é isso mesmo, moço do cabelo grisalho e do sorriso sincero. meu coração tá machucado e amassado. calejado, sabe? 
quer que eu te conte uma história? tenho várias, mas posso resumir tudo pro senhor, numa folha só de papel. talvez o senhor não se interesse, mas vou contar mesmo assim: 
já me envolvi com muita gente que fez do (meu) coração, tripas. aí tô meio que desacreditada. fico fazendo exercícios de auto-ajuda, essas coisas bem bobas do tipo eu te amo, mas eu me amo mais. é assim que tem que ser, né, doutor? acho que sim. sei lá. tenho o coração fibrilado e cheio de curvas que não se encontram. não sou exatamente uma pessoa apropriada pra responder isso. 
só sei que dói. 
fisicamente. 
dói toda vez que ele fala que a saudade machuca, que se sente mal por estar apaixonado, que se sente mal por não estar comigo e se sente mal porque não deveria gostar tanto de mim. dói toda vez que me sinto um incômodo. porque ninguém quer ser amado inconvenientemente. ou num momento inoportuno. entendo que todo mundo tenha seus problemas, medos, recios e seu próprio tempo pras coisas. mas, pff... eu não sou depósito de dores dos outros. só das minhas. a dos outros, agradeço, mas passo. 
já fui chamada de tudo que o senhor possa imaginar. tudo mesmo. de filha da puta a biscate, sem nunca nem ter traído namorado algum nessa vida. se não gosto mais da pessoa a ponto de querer estar com outra, não suporto nem a presença. sou intolerante, sabe, doutor. aprendi a ser a fria e distante com papai. embora ele esconda o lado mais sentimental e sensível do mundo underneath, papai não abraça e não diz que está com saudades. papai emite grunhidos que podem ser entendidos como um obrigado e parabéns se o ouvido estiver (bem) afiado. papai se comunica através de gestos. um pouco primitivo. mas funciona. só um ser evoluído e à flor da pele pra entender os gestos de papai. aliás, o senhor, tem o nome de papai. não tem o jeito, mas tem o nome. e o nome do meu professor também. 
Édipo. 
não, o nome do meu pai não é Édipo. isso é outra coisa, que é melhor deixar pra lá. esse é meu segredo com o moço do conserto. retomando: já contei pro senhor que tenho meu próprio mecânico, vidraceiro e carpinteiro? pois é. ele me ajuda em tudo que preciso. é um faz-tudo. só que do coração fibrilado. não esse do pulso, esse aqui que bate vez ou outra dentro do peito. e nós temos muitos segredos, porque eu gosto de ter segredos com quem confio. ao contrário da minha relação com papai, nunca nos comunicamos em silêncio. é aberto. e exposto. um pouco hostil, vez ou outra, chega a incomodar, mas lá eu não posso esconder, nem emitir grunhidos tentando expressar algo. lá, sou eu mesma, de cara lavada e nua. não literalmente, claro. lá, sou o centro das atenções, embora eu repudie com todas as minhas forças isso. tenho que contar meus medos e minhas fraquezas. tudo que eu não conto pras outras pessoas a meu respeito. e 
dói, doutor. dói muito. 
fisicamente. 
mas não é pra isso que serve o conserto e reforma? pra tirar tudo do lugar, quebrar paredes, canos, inundar o banheiro, deixar o vizinho com enxaqueca e manchas de cimento e pó por onde a gente passa, numa tortura lenta, minuciosamente feita pra saber se realmente queremos mudar alguma coisa? é, né, doutor, mas aí, quando fica pronto, não queremos mais sair do recinto reformado. queremos comer, tomar banho, fazer as necessidades, trabalhar e dormir no mesmo lugar. ficamos devotados àquele ambiente novo, que é exatamente o mesmo que o velho, só que com azulejos novos. 
ah, falando em reforma... antes de ir embora, doutor, queria só contar que estou pintando meu apartamento. e teimei que queria eu mesma fazer a tinta. inventar meu próprio tom de rosa. o rosa vlévers. depois de ler um estudo de quase cinquenta páginas sobre cores e pigmentação, descobri que se eu misturar vermelho, verde azul... bom, essa também é outra coisa que é melhor deixar pra lá. o senhor não está interessado em saber de cores, não é mesmo? gostaria só de agradecê-lo por me ouvir. ainda que eu tenha dito tudo isso só dentro da minha cabeça conturbada enquanto o senhor puxava a âncora do meu dedo direito. foi um alívio ter desabafado. 
agora nós também temos um segredo. 
só nosso. 
obrigada, doutor. 

(e desculpe ultrapassar mais do que uma folha, da próxima vez, vou poupar o senhor de uma mini aula de pigmentação de rosa vlévers)

mercearia - 07/02

não não, não consigo mais pra ficar perdoando ninguém a torto e a direito. mesmo que seja tragável o perdão. tá bom, não é apenas uma questão de engolir ou não. eu não sou perfeita, cometo erros também e as pessoas me perdoam. mas sabe, fica calejado. aí me entrego, com todo meu lado pisciano - embora meu lado duplamente ariano entorte o nariz pra isso - que tenho direito, construo minuciosamente uma coisa que os outros tratam de destruir via whatsapp two minutes ago. 
estava sentada num restaurante chique francês e meu crepe divino de frango e o queijo de cabra iam entalando um pouco mais a cada palavra. tô confuso. agora não dá. ok, preciso sair daqui. sorte minha que encontrei pessoas-chave no meu caminho esburacado. e estava sentada ali com uma delas. me desculpe te colocar nessa situação, mas quero passar lá, pegar minhas coisas. e olhar na cara dele, pra ter certeza de que está acabado. dói, mas um soco vale mais do que mil palavras. né? é. e é o que a gente sente. um soco, bem na boca do estômago, por onde meu crepe e o queijo estão passando, sendo empurrados goela abaixo. pego minhas coisas e vou. não é por nada, não, mas estas coisas são minhas e as quero comigo. olha, sinto muito, mas não vou ajoelhar e insistir. apenas pego minhas coisas e vou. 
a dor não passa, mas aí a cama nova chegou no dia seguinte, e vamos lá, Carolina, você precisa levantar da cama velha, desmontá-la e deixar espaço pra nova poder caber neste espaço minúsculo que você carinhosamente apelidou de minha casa. levanto, ponho meu vestido mais bonito e recebo os entregadores. até o 4º a gente leva, se quiser que leva até o 5º, tem uma taxa de 10 real. fico sem ter resposta. mas vou fazer o quê? meu zelador não se encontra, não vou deixar um box de casal atrapalhando a única estreita saída de incêndio do prédio. pago 10 real engolindo a seco. nem sempre adianta bater boca. 
e agora encontro-me 10 real mais pobre e com um buraco no meio do tórax. dizem que é ali que fica o coração. sei lá, né. o meu já nem deve mais estar por ali. deve ter se perdido em outro lugar do corpo. 
só sei que dói. 
fisicamente. 
minha única tarefa do dia é organizar. organizo os armários e sou consumida por uma necessidade de me livrar de todas as coisas que não uso mais. dois sacos de roupas. um com parte da minha coleção de sapatos. junto a isso, minha cama antiga, que me acompanhava há 14 anos e uma bolsa que não uso mais. tirei muitos quilos de peso das costas. e abri espaço pra coisas novas. pronto. ufa. que alívio. 
posso finalmente dormir na minha primeira cama de casal, no meu minúsculo espaço que chamo carinhosamente de minha casa. queria que ele estivesse aqui, pra dividir o espaço dessa cama grande demais pro meu corpo esguio. choro disfarçadamente um pouquinho e engulo o choro. a seco. e entalado. mais que o crepe com queijo de cabra do restaurante francês. 
lembro que estou há muito tempo querendo tatuar. acho que é isso. aproveitar meu dia de folga no meio da semana que a Eletropaulo me proporcionou e vou ali no moço que tatua pintar mais uma parte do meu corpo. e depois vou ali comer o melhor yakissoba de São Paulo com companhias agradabilíssimas de pessoas-chave. cartão, ipod, tudo ok. enxugo o canto dos olhos, o que restou de lágrima, cuidadosamente, pra não borrar o rímel. respiro fundo e agora posso ir. 
não tô conseguindo, tudo me lembra você aqui, via whatsapp three minutes ago. sentei na cama, me perguntei what the fuck? e esqueci de tudo que tinha pra fazer. olha, legal você reconhecer tudo isso, mas... machuca, né? desculpa, joguei nas suas costas coisas que não eram suas
jura? 
aí já nem é mais a mesma coisa, porque sabe, encontro-me 10 real mais pobre, com muitas coisas a menos e com algo destruído via whatsapp five minutes ago. e, não, não passa, fica ali, guardadinho no fundo da gaveta e, por mais que eu tenha sido consumida por uma necessidade de me desfazer disso tudo, sempre vai ficar o rastro. e vira e mexe volta. 
também estou calejada. também já tive outros relacionamentos. também já me machucaram, me fizeram de gato e sapato. eu também. eu também. eu também. 
me afasto, porque chega de me entregar como se fosse o último e o primeiro amor do mundo. love is not enough, como diria meu guia de consulta sobre o assunto, Trent Reznor, um dos meus deuses. não é. mesmo. e ninguém acredita nisso quando eu falo. só acreditam depois que termina e as pessoas já (se auto) destruíram em vão. tsc. parem. 
tenho mania de limpeza e já me peguei catando muitos cacos por aí, demorei um bocado de tempo pra perceber que a grande maioria destes cacos eram meus. mas aprendi a ser maior que isso, com muito custo e muitas horas às quartas-feiras. 
e minha cama nova é ainda maior que eu. ela me abraça e tem espaço pros meus livros dormirem comigo. e o meu filho, meu querido HP, que nunca me abandona. e sinto-me confortável assim, muito obrigada. a dor não passou, não. não vou mentir. ficou marcado. mas, aí, comprei tinta pra pintar uma das paredes. queria um tom de rosa vlévers, que não saberia descrever mas nem em um milhão de anos - bala de iogurte, segundo a escala de cores da loja. mas não, nada disso, eu mesma vou inventar a própria cor da minha parede. me dê este corante e uma tinta branca, que eu me viro. e vou me dedicar a habilidades manuais caseiras, pra preencher o tempo. 
ah, o tempo. 
le temps détruit tout
é mesmo. o tempo e o whatsapp também. e vou levando, com coisas a menos e espaço demais na cama, varrendo os cacos e levando-os às quartas-feiras, na companhia de outra pessoa-chave, pra colar tudo no lugar. 
pessoas-chave. 
e meus livros. 
e minhas músicas. 
minhas. só minhas. e as quero aqui, na minha cama, porque ela é grande demais pro meu corpo esguio e pequena demais pra imensidão de coisas que carrego. e, contanto que eu mantenha minhas coisas em cima da cama, dormindo e acordando comigo, o rolo sujo da tinta que eu mesma vou inventar o tom, vai ficar tudo bem. 
até a próxima reforma. 
até o próximo whatsapp.