4.11.13

noose

por um momento, achei que fosse morrer. de verdade. meu corpo devia estar pesando uns 200kgs, embora eu não pese nem sessenta. leva você, eu disse, quando parei o carro cinco minutos depois de sair de casa. eu não tinha força nos braços pra dirigir.
na roupa ficou o cheiro de cânfora do emplastro. a sensação é de que isso nunca vai evaporar. nem se eu lavasse umas cem vezes. mas não vou lavar nada. acho que está impregnado no meu nariz.
a vontade de sair andando era imensa. sem ter pra onde ir. só andar. sem fugir. somente andar. e respirar esse ar pavoroso que São Paulo nos proporciona. eu odeio esse lugar. odeio muito. deixei-me ser domada por uma cidade que cheira a mijo. sinto-me fraca e acho que não vai dar mais. chega. já chega. eu não aguento mais.
não me lembro mais das coisas. o que eu jantei ontem? até onde eu vi The Killing? o que é que eu tinha pra fazer hoje mesmo? vez ou outra me pego procurando coisas que estou segurando na outra mão.
não quero levantar. não quero ir ali comer. não quero ir ali trabalhar. nem ali no outro trabalhar de novo. acho que tenho claustrofobia. só pode ser. coloco a cara pra fora, sinto o cheiro de mijo e me enojo. eu odeio esse lugar com todas as minhas forças. quero sair correndo. acho que quero começar a treinar. minha respiração está uma merda, meu coração vive acelerado. preciso fazer exercícios. meu corpo dói absurdamente, por inteiro. não há um espaço no corpo que não doa. pareço estar com a carne exposta.
acho que preciso tirar uns dias de férias, não pra voltar revigorada, mas pra não piorar. estou desgovernada, indo ladeira abaixo.
tenho vontade de chorar quando abro meu e-mail do trabalho.
e desculpe se não me interesso. não é por querer, é porque não consigo prestar atenção. porque eu não estou entendendo nada ultimamente. acho que carrego cem quilos só acima do pescoço. aqui não entra mais nada. preciso vazar. correr e suar. acho que aguento cem quilômetros seguidos. quero passar uns dois dias correndo. e suar a alma. até não existir mais nada. até que a dor desapareça. até que tudo se dilua.
mas não hoje. hoje estou presa na cadeira na frente do computador. estou vestida e pronta pra sair, mas a porta parece um lugar muito distante daqui, embora fique somente a alguns pequenos passos. não quero ir ali. ver aquelas pessoas, passar naquela recepção me enoja ao ponto de revirar o estômago. quando foi que me tornei isso? me olho no espelho e não me reconheço. a feição é outra. sinto-me feia e acabada. magra, com os ossos expostos. e um monte de cicatrizes. minha pele está desfazendo, minhas unhas estão saindo em camadas.
as roupas parecem não servir mais. e os sapatos estão largos. será que estou encolhendo? minha postura está cada vez mais arcada. quero me esconder aqui embaixo da mesa. acho que é um processo lento até encarangar e virar aquelas pessoas corcundas com verruga peluda na cara. já devo estar no passo três ou quatro, algum tipo de nível avançado de envelhecimento precoce. quanto tempo daqui até estar morto por dentro totalmente? sinto dores no estômago. não quero comer.
passei um tempo me dedicando a roupa que estou vestindo hoje. puxa daqui, estica dali, não está bom ainda, mas acho que dá pra sair assim sem que alguém ria da minha cara. espero não ter que ouvir alguém me chamar de canto no metrô pra falar que estou com a bunda de fora porque minha saia está rasgada ou ela não está colocada corretamente. ou que estou com sapatos trocados.
só quero correr. vou começar a correr à noite, quando o minhocão fecha. vou daqui até a zona leste, sem parar. e depois voltar. pelas ruas escuras e silenciosas. São Paulo às vezes sabe ter um silêncio ensurdecedor e calmante ao mesmo tempo. talvez eu corra de braços abertos e olhos fechados, torcendo pra não tropeçar num dos mil buracos da rua mal asfaltada.
vou até ali suar a alma, me diluir, me reduzir a água. e deixar vazar, por todos os cantos. e quando eu voltar, quero panquecas de carne e milkshake de chocolate com cobertura de caramelo. porque espero estar com fome. vou ali ver se consigo pensar mais simples. e eu já volto. vou ali suar, porque chorar já não adianta mais. preciso chorar de corpo inteiro. e fazer a dor se esvaecer, correr entre as pernas. e fazer o coração descompassado bombear corretamente. e assim que eu chegar, vou jogar essa roupa fedendo a cânfora, fora. é isso. o plano é esse.
mas não pra hoje. vou deixar pra daqui a pouco. porque preciso encarar o longo curto caminho até a porta e me enojar ali na recepção e sentir o cheiro do desprezo. às vezes pergunto-me se sou eu. ou o que foi que eu fiz pra merecer. vai ver é algum tipo de punição. quem acredita nessas coisas deve saber me explicar melhor. porque eu não posso.
fazer nada.
pelo quanto eu sei que isso é só agora.
e que é por enquanto.
não é pra sempre.
é só uma fase.
é só um contratempo.